Prosa Poética | Ranzinza aos vinte e cinco anos, por Jeane Tertuliano


Percebi que estava ficando velha somente quando comecei a utilizar a frase "no meu tempo" em minhas falas. Nunca pude imaginar que estaria tão ranzinza aos vinte e cinco anos de idade, no entanto, cá estou e, achando pouco, o universo arruinou a minha visão para intensificar ainda mais a minha fatídica condição.

Há algum tempo que já não consigo tolerar os berros e os cabulosos choramingos das crianças, e nem irei me demorar mencionando os infames adolescentes com os seus hormônios efervescentes. Definitivamente, não sei se um dia hei de ansiar por a maternidade, aderi à solitude por tempo demais para que eu possa cogitar a voltar atrás. Toda a gente parece afetar a minha saúde mental, não posso afirmar que a minha intolerância seja normal, entretanto, eu a compreendo, porque as pessoas são desagradáveis a maior parte do tempo.

Talvez eu esteja demasiado acostumada a ficar sozinha. Não é à toa que prefiro infinitamente o gozo pungente de haver me tornado íntima da pesarosa melancolia em vez de sair por aí fingindo estar submersa em alegria.


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