Postagens

Mostrando postagens de abril, 2021

Prosa Poética | O Espelho, por Jeane Tertuliano

Imagem
A existência é uma flama. Já concebeu a possibilidade de o agora ser o grand finale da sua vida? Eu aposto que não. A práxis moderna consiste irrevogavelmente em experienciar com gana o regalo do presente em vez de contemplar calma e conscientemente a seriedade intrincada na liquidez da nossa brevidade. O que você enxerga / sente ao demorar-se defronte o espelho, encarando a si mesmo enquanto transborda na pequenez da imagem frivolamente refletida? Para o ser humano, é tipicamente difícil exercer autoanálise, e, até certo ponto, é compreensível. A crueza da realidade tende a ser uma faca de dois gumes àqueles que há muito vêm se negando a lidar com a lógica existencial. Uma vida repleta de quimeras não renderá bons frutos a ninguém. Permitir que a ilusão o faça de joguete é uma das piores coisas que um indivíduo pode cogitar fazer. Feche os olhos e mergulhe sem hesitar na escuridão por detrás das tuas pálpebras, não se acanhe! Adentre o âmago e se achegue à essência, desnuda. Entre as...

Prosa Poética | Sobre Transcender, por Jeane Tertuliano

Imagem
Desde miúda (não é que eu haja crescido muito desde então), lembro-me de questionar incessantemente minha querida mãe acerca do porquê da vida e tudo que nela há. É claro que a genitora, sendo mãe da minha pessoa, dava corda; divagava comigo horas a fio, instigando mais e mais o meu anseio pelo saber. Ainda que eu fosse deveras risonha, por vezes, vislumbrei a melancolia achegar-se sorrateiramente a mim, e mesmo quando eu tentei ignorá-la, a danada persistiu em obscurecer o meu sorriso, fazendo com que eu mergulhasse em reflexões sem pé nem cabeça, com o intuito de desviar-me do meu real objetivo. Houve um tempo no qual fui acometida por demasiado infortúnio, do tipo que faz a pessoa desacreditar nas coisas boas do mundo. Eu até sinto o meu semblante encolher frente o assombro causado pelos fragmentos das vis lembranças... É penoso mencionar que cheguei a estagnar as minhas buscas, renegando a mim mesma ao abdicar da plenitude que eu estivera tão perto de experienciar. Fez-se necessári...

Prosa Poética | Ranzinza aos vinte e cinco anos, por Jeane Tertuliano

Imagem
Percebi que estava ficando velha somente quando comecei a utilizar a frase "no meu tempo" em minhas falas. Nunca pude imaginar que estaria tão ranzinza aos vinte e cinco anos de idade, no entanto, cá estou e, achando pouco, o universo arruinou a minha visão para intensificar ainda mais a minha fatídica condição. Há algum tempo que já não consigo tolerar os berros e os cabulosos choramingos das crianças, e nem irei me demorar mencionando os infames adolescentes com os seus hormônios efervescentes. Definitivamente, não sei se um dia hei de ansiar por a maternidade, aderi à solitude por tempo demais para que eu possa cogitar a voltar atrás. Toda a gente parece afetar a minha saúde mental, não posso afirmar que a minha intolerância seja normal, entretanto, eu a compreendo, porque as pessoas são desagradáveis a maior parte do tempo. Talvez eu esteja demasiado acostumada a ficar sozinha. Não é à toa que prefiro infinitamente o gozo pungente de haver me tornado íntima da pesarosa me...

Prosa Poética | Infortúnios Nocivos, por Jeane Tertuliano

Imagem
É dia. Dos noticiários televisivos, jorram infortúnios nocivos: mais Marias foram violentadas e / ou estupradas cobardemente. Ainda assim, é dia. Pessoas acordam e vivenciam suas rotinas sem despertar ante o constante oscilar dos monstros que vêm e vão de suas pseudojaulas. As vítimas, quando não são postas em túmulos, seguem existindo sem porquê nem para quê num mundo que insiste em apontá-las como culpadas, crê? Nada novo por aqui nem acolá... Independente das injustiças acometidas àquelas que sofrem desde que nasceram, é dia. O grito que ousou irromper das entranhas doloridas foi fisgado pela violação abrupta de um pai (?), padrasto, tio, vizinho etc. É dia, mas a lei continua a dormir quando o assunto em pauta envolve uma pobre coitada vestindo saia curta, batom "vermelho cheguei" nos lábios e hematomas enfeitando o seu corpo depravado. É dia? Os algozes que deveriam habitar a escuridão da noite andarilham livremente aonde bem entendem. A Maria que ousar delatar um assédi...